Prefeito só presta se for tipo um síndico – A cidade como um condomínio

Vários filósofos e pensadores criaram o seu modelo de sociedade, agora eu vou convidar você a confabular comigo uma organização de sociedade ideal!

Para começar, o Prefeito seria tipo um síndico. Imagine a cidade dividida em mini prefeituras de bairro, como se cada bairro fosse um condomínio. E para cada bairro, um subprefeito-síndico. Somente com uma administração mais específica é que se consegue cuidar de tudo! Atribuição demais, poder demais na mão de uma pessoa tem cheiro de corrupção!

Aqui as pessoas iriam votar e CONTRATAR apenas o representante do bairro onde mora. Observe a palavra usada: “contratar”. O subprefeito-síndico, portanto, seria um administrador contratado. Assim todos saberiam quem ele é, onde mora e o que cobrar dessa pessoa que administra o que é de uso e bem comum de todos os moradores da região. Existiriam muitos subprefeitos-síndicos de bairro, então a cidade seria muito melhor administrada e com menos chance de existir um “salvador da pátria” que ninguém conhece mas já ouviu lendas a seu respeito. Todo síndico é chato e todo mundo o conhece.

Cada bairro, que seria uma subprefeitura, contrataria uma empresa para fazer a tubulação de água, esgoto, torres de energia, etc. Depois de construídos, aí o subprefeito-síndico iria fazer contratos de prestação de serviços com quem iria cuidar da água, do esgoto, da energia, da segurança, da limpeza, da reciclagem do lixo, etc. Nessa condição haveria mais empresas prestando esses serviços, pois cada bairro-subprefeitura iria precisar contratar alguém.

Com uma variedade maior de prestadores de serviços para cada função, mais ideias as pessoas teriam para preservar, economizar e criar soluções melhores. O que acontece hoje é que o monopólio ou oligopólio de empresas desses serviços faz cair a qualidade do que é prestado, além de impedir que mais pessoas ganhem dinheiro prestando aquele serviço.

Cada bairro teria também seu representante legislativo, o vereador-zelador, aquele que iria representar apenas o seu próprio bairro na Câmara de Vereadores da cidade. Portanto, um vereador-zelador para cada bairro-subprefeitura. Hoje em dia, alguns bairros se organizam e elegem um representante, outros bairros ficam sem nenhum representante!

Não concorda com o que ficou decidido pelo bairro? Muda de bairro! Para quem não se importa nem com a administração do condomínio, não faz diferença quem seja o representante. Mas quem é realmente preocupado e se atenta para qualquer tipo de mudança que interfere na sua vida, com certeza a proximidade com o síndico faz toda a diferença! Imagina a quantidade de mulheres que passariam a participar da política? Só quem já foi numa reunião de condomínio sabe como as mulheres são ativas nas questões referentes ao prédio que mora!

As decisões que impactam outros bairros deveriam ser decididas no nível da prefeitura e da cidade, mas somente as questões que realmente interfeririam nessa comunidade ampliada! Caso contrário, a maior autonomia seria decidida internamente, dentro do bairro mesmo. O que acontece hoje é que as pessoas estão dando atenção demais ao que não lhes diz respeito, e pouquíssima oportunidade e chance os moradores têm de dar atenção ao que realmente lhes importa, como quando acaba a energia e não tem uma pessoa específica para acudir ou responsabilizar.

Cada X número de cidades formaria um estado. Hoje existem estados com muitas cidades e outras com poucas. A delimitação deveria ser muito mais geográfica, do que histórica. Delimitar geograficamente uma região serve para pensar estrategicamente quais principais rios abastecem quais cidades, ou quais recursos escassos interferem em quais propriedades. Nessa forma ideal de cidade a cultura, a arte, a língua e tudo o que é intangível ou abstrato deve ser coordenado individualmente, pela família ou, no máximo, pelo bairro, pois é questão para ser definido e alinhado com as pessoas próximas, como por exemplo o que deve ser ensinado nas escolas.

Naturalmente, as melhores gestões de bairro/sub-prefeituras acabariam por ser ampliadas e as boas práticas compartilhadas. Da mesma forma, a necessidade de fazer comércio e trânsito com as outras regiões ajudaria a manutenção da paz. As pessoas tendem a tratar melhor quem elas dependem, como clientes e patrões. E, ainda! Com uma administração mais próxima, as pessoas se conheceriam melhor e cuidariam mais umas das outras. Quando não se conhece bem o seu vizinho, é mais fácil criar conflito.

Nessa organização de sociedade, as principais formas de conduta seriam baseadas na propriedade privada de cada indivíduo e a sua liberdade e responsabilidade de tomar as próprias decisões, desde que se respeite a liberdade e a propriedade alheia.

As decisões judiciárias seriam definidas por tribunais reconhecidos dentro dos bairros e prefeituras, uma vez que a legitimidade de quem é imparcial deve-se prioritariamente à sua legitimidade e chance de perder clientes para outros. Assim, a justiça seria mais ágil, mais eficaz e barata.

Para se conviver em sociedade é necessário saber quem é o responsável, quem é o dono, quem são as pessoas que tomaram tais decisões e por qual motivo. Quando se têm uma estrutura de poder com vários tomadores de decisão distintos, cheia de burocracias e, ainda, impessoal, ou seja, com o rótulo de “departamento”, em que ninguém ali tem responsabilidade, toda a sociedade fica refém para criticar, julgar, punir e até mesmo afastar as pessoas que estragam a convivência em sociedade.

A corrupção não é uma atribuição pessoal de um indivíduo, ela é resultado de uma estrutura de sociedade em que não existe responsabilidade pessoal dos atos praticados, ou então quando a pessoa tem tanto poder, que ela confunde o que ela é dona ou o que apenas está administrando pelas outras pessoas.

Para isso, precisamos entender para quê serve uma estrutura de poder, quais são as necessidades das pessoas em cada rua, bairro e cidade. A intenção desse exercício de imaginar uma cidade ideal serve para colocar em perspectiva todos os paradigmas existentes sobre as funções de cada político, como eles interferem na nossa vida, e o que realmente deveriam fazer.

Quando a gente imagina uma organização de sociedade, ou então uma estrutura política, a gente precisa se prevenir de todos os riscos possíveis. No caso da pessoa ser mentirosa, não cumprir com o que se comprometeu, roubar ou até prejudicar as pessoas, esses contratados/eleitos, como o “subprefeito/síndico” e o “vereador/zelador” por exemplo, devem ser imediatamente afastados. As regras de trabalho devem ser tão claras e específicas que uma mera substituição não acarretaria qualquer sofrimento. Naturalmente, como o trabalho de contratar empresas para fazer trabalhos de manutenção, fiscalizar o cumprimento, saber quanto se arrecadou de cada morador/condômino e quanto deve economizar para fazer obras importantes é um trabalho cansativo, as pessoas decidiriam trabalhar nesses cargos com outra visão de “cargo público”.

Eu acho a ideia do síndico a melhor proposta de servidor público que existe! Primeiro, ele também é interessado. Segundo, suas atribuições são claras e nada luxuosas. Terceiro, ele recebe reclamações e é o responsável pela manutenção do equilíbrio de todo o sistema, pode ser trocado caso não agrade a maioria dos moradores e não tem a menor chance de ser populista ou demagogo.

Para falar a verdade, somente com os políticos todos sendo uma espécie de síndico é que o país vai para frente!

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