A Revolta do Pequi (artigo inédito que o Jornal O Popular não quis publicar em 2018)

          Em política, assim como nas guerras, as pessoas se unem mais contra um inimigo comum do que por estarem em comum acordo sobre o que querem para o futuro. O perigo, o medo e a revolta com os grilhões das prisões humanas é o que sempre motivou o indivíduo a dedicar-se arduamente a lutar por um propósito, unindo-se, muitas das vezes, com desafetos de menor poder ofensivo.

          Imaginando que seja essa a conhecida estratégia, nós percebemos muitos partidos e líderes políticos formando alianças que pelos olhos dos eleitores seriam impensáveis! Num dia, diz-se que tudo o que defende o seu concorrente ideológico é um risco perigosíssimo para a nação. No outro, ao conseguir uma boa vaga na chapa daquele, entremeados por sorrisos e abraços, todo o grave risco que a sociedade correria com a eleição do concorrente passa a ser desprezado.

          Ora, claro está que para a nossa classe política o país não está passando por dificuldades tão críticas. Não lhes compadece os desvios torpes que tomaram conta das campanhas eleitorais e dos mandatos eletivos que adoeceram nossas instituições! Para esses serventes politiqueiros, o maior perigo que correm é de perderem seus foros privilegiados ou suas verbas polpudas de gabinete, fontes seguras de “caixa” para reeleição. Que imposição amarga nos compete ao sustentar tamanha dramaturgia social, tão patética! Todo teatro apenas para celebrar os privilégios e as mordomias que advêm dos cargos ímprobos e dos títulos hipócritas que lhes permitimos distribuir entre eles mesmos!

          Muitos eleitores, cúmplices da tentativa de homicídio da moralidade e ávidos por conseguir benefícios pessoais dentro da fábrica de regras, acostumaram-se a exigir para si moedas de troca ao oferecerem seus apoios. Assistindo aos escândalos sendo desvelados um a um, e vivendo na pele a dor do desperdício do recurso público, alguns desses eleitores começam a despertar o entendimento de que perderam muito mais do que ganharam ao investirem no “toma lá, dá cá”.

          Independentemente do volume das contas bancárias, tais votantes antes acreditavam que seriam mais espertos do que os políticos, pois sugariam deles os recursos públicos que estes detinham controle. Acabaram por perceber que tentavam extorquir de quem, na verdade, lhes roubavam diuturnamente! Irônico é perceber a revolta dessa descoberta! A raiva não é por descobrir o mau caráter do político, senão com o fato de estarem perdendo mais do que supunham capazes de aproveitar-se deles!

          O verdadeiro inimigo comum que nos obriga a unir forças para combatê-lo, não é somente o político corrupto, para que não seja reeleito, senão também a pretensão corrompida por obter favores pessoais por parte do eleitorado! Não nos enganemos! Apoiar política pela causa é o ato cívico mais nobre que deve ser valorizado na nossa sociedade!

          Revolta honesta é a do pequi. Quando mordido, o pequi, revoltado, espeta! Se a população agora acordou para a consciência de não querer mais ser mordida, resta usar sua influência com o propósito de não reeleger quem lhes mordeu, espinhando através da participação política e da exposição das verdades outrora camufladas de que essa imoralidade politiqueira tem que acabar! A extorsão deve ser extinta tanto do eleitor com relação ao político, quanto com o político com relação aos pagadores de impostos. Nesta guerra de interesses políticos, todos se destroem mutuamente.

 

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