Um estudo sobre a ignorância humana

Gosto muito do filósofo e político inglês Francis Bacon (1561 — 1626). Estudando suas obras, deparei-me com um conceito interessantíssimo que ele trouxe a respeito de “ídolos”. De acordo com o seu pensamento, ídolos seriam os responsáveis pelas análises deturpadas da realidade. Homens comuns que caiam nas armadilhas desses ídolos, acabavam perdendo a razão, o senso de verdade e, fatalmente, tomavam decisões erradas.

Mais tarde, Mises vai explicar que o objetivo final da ação humana é sempre a satisfação de algum desejo do agente homem. Só age quem se considera em uma situação insatisfatória, e só reitera a ação quem não é capaz de suprimir o seu desconforto de uma vez por todas. A força motriz da ação, portanto, é a insatisfação humana em substituir sua situação menos satisfatória por outra mais satisfatória. Entretanto, sabe-se bem que o conhecimento é limitado às informações assimiladas e disponíveis no momento da tomada de decisão, o que faz com que, muitas vezes, o resultado da ação reste frustrado, pois o indivíduo que age muitas vezes está cego pela deturpação da informação fornecida pelos “ídolos” descritos por Francis Bacon.

Bacon preocupou-se com a análise de falsas noções (ídolos), os quais são responsáveis pelos erros cometidos pela ciência ou pelos homens que dizem fazer ciência. Esses ídolos foram classificados em quatro grupos:

1) Ídolos da tribo:

Tais ídolos são assim chamados porque são inerentes à própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. A mente absorve através dos sentidos a realidade e, assim, a desfigura completamente.

Mesmo que o ser humano queira ser fiel às informações que absorve, é impossível pela natureza humana conseguir decorar cada mínimo detalhe no momento da ação. Não dá para saber quais foram todas as milhões de causas que influíram num processo ou as milhões de consequências indiretas, por exemplo.

Assim sendo, os ídolos da tribo ocorrem por conta das deficiências do próprio espírito humano e se revelam pela facilidade com que generalizamos, distorcemos e omitimos os fatos com base na nossa experiência e percepção. É falsa a asserção de que os sentidos do homem são a medida das coisas. Muito ao contrário. Todas as percepções, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o universo e a verdade dos fatos. O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe. As percepções dos sentidos e da mente quando tomadas como verdade prejudicam a tomada de decisão dos indivíduos.

2) Ídolos da Caverna:

Em referência à obra ‘República’ de Platão, Bacon entende que cada pessoa possui sua própria caverna, que interpreta e distorce a luz de uma forma particular. Os indivíduos acabam por se acostumarem e se apegarem a esses modelos mentais criados. Isso quer dizer que cada indivíduo possui a sua crença, sua verdade particular, tida como única e indiscutível. Cada um — além das distorções próprias da natureza humana em geral — tem uma caverna que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em ânimo preocupado e predisposto ou em ânimo equânime e tranqüilo; de tal forma que o espírito humano — tal como se acha disposto em cada um — é coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso.

Você, com certeza, já ouviu alguém dizer algo desse tipo:

“João veio grosseiro dizer que não poderia me ajudar. Ele não queria, na verdade. Eu percebi nele aquela má vontade”.

A frase dita pelo João foi, simplesmente, que não poderia ajudar a pessoa. No entanto, a interpretação do interlocutor baseada nas experiências, nas crenças e nas verdades por ele absorvidas foi completamente além e já admitiu outras informações que não estavam presentes. Engraçado que, nesses casos, quando aparece outra pessoa para falar sobre o mesmo assunto, a nova pessoa interpreta uma segunda versão completamente diferente da primeira, porque somos todos muito diferentes.

Imaginando que cada mente absorve as informações por “lentes” criadas pela nossa personalidade e experiência de vida, alguns enxergam a vida em tom cor-de-rosa, outros cinza, outros nem se preocupam com a cor, apenas com a forma, etc. A PNL – programação neurolinguística – fala muito sobre isso e o Eneagrama também.

Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantêm o homem preso em preconceitos, singularidades, crenças e valores pessoais.

3) Ídolos do Foro:

Segundo Bacon, os ídolos do foro são os mais perturbadores, já que estes alojam-se no intelecto graças ao pacto de palavras e de nomes. Esses ídolos são provenientes, de certa forma, da associação recíproca dos indivíduos entre si quando conversam e estabelecem definições para cada termo do vocabulário. Com efeito, os homens se associam graças ao discurso, e as palavras são cunhadas pelas informações que pretendem transmitir. Entretanto, como já mencionado, cada indivíduo possui uma interpretação diferente para cada termo, o que impõe às palavras, sobretudo quando impostas de maneira imprópria e inepta, instrumento de bloqueio espantoso sobre o intelecto!

Gírias, definições preconceituosas ou limitadas, falta de palavras ou habilidade vocabular, tudo isso impede que a verdade seja encontrada ou dita. A verdade sequer é entendida, em muitos casos, pelo ídolos de “foro”, que explica o filósofo.

É a chamada “Torre de Babel”, mesmo! Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias.

De acordo com a teoria baconiana, nem mesmo as definições poderiam remediar totalmente esse mal, tratando-se de coisas materiais e naturais posto que as próprias definições, sobretudo as subjetivas, constam de palavras e as palavras engendram palavras. Percebe-se portanto, que a própria linguagem humana possuem certo grau de distorção e erro, sendo que umas possuem maior distorção e erro que outras.

Quantas vezes já ouvimos dizer “Ora, se só existe a palavra ‘saudade’ no Brasil, os estrangeiros não sentem saudade?”. Claro que sentem! Mas “modão sertanejo” só aqui. Legítimas, como as havaianas e a jabuticaba.

4) Ídolos do Teatro:

Esse é o que eu acho mais interessante! Os mitos, as lendas, as ideologias, os “bichos-papões” da humanidade estão todos aqui. Os ídolos do teatro têm suas causas nos sistemas filosóficos e em regras falseadas de demonstrações. Quantos falsos conceitos são as ideologias, os engendramentos filosóficos, psicológicos, teológicos, políticos e científicos! Quase todos ilusórios! Um imenso arcabouço de fantasias no imaginário coletivo.

Os ídolos do teatro, para Bacon, eram os mais perigosos. E eu concordo! Terroristas islâmicos matam e morrem em nome de um deus. Ainda por cima, sempre existe o viés da autoridade: os livros clássicos, sagrados ou qualquer palavra dita por pessoa de “renome” já traduz a própria verdade expressa, a fonte de todo o conhecimento, sem que se coloque em prática, teste a validade ou então se analise friamente as consequências dos seus propósitos.

Existe uma profunda necessidade humana em adotar uma filosofia para si, uma resposta para as infinitas perguntas que o silêncio de Deus nos questiona. Verdade seja dita, não há como negar que as filosofias adotadas ou inventadas são fábulas, produzidas e representadas, figurando mundos fictícios, abstratos e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas dos antigos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, porque as causas dos erros mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais, não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor, de acordo com a tradição, com a credulidade e a negligência de uma quantidade de pessoas.

 

Em suma, evidencia-se que o ser humano está bastante limitado: apreende informações de modo limitado, compreende por meio das suas poucas experiências e crenças, se expressa com poucos instrumentos vocabulares e cognitivos e, ainda por cima, pouco sabe sobre a real noção do todo. Por esse motivo, como dizia Albert Einstein, nem mesmo o universo é precisamente tão ignorante quanto o homem.

Ocorre que, ao serem analisadas criticamente, todas essas formas de ignorâncias são, ao mesmo tempo, atribuídas pela livre vontade do indivíduo quanto passíveis de transformação pela própria vontade do ser humano. A pessoa pode focar sua atenção no que pretender; pode assimilar uma perspectiva otimista ou pessimista da vida; pode se preocupar com a interpretação do interlocutor, como também pode ignorar qual seja a conclusão do ouvinte; pode respeitar a visão de mundo alheia, bem como decidir impor sua perspectiva aos demais; pode acreditar e cultivar o que faz bem para si e para os outros, como pode também ignorar as outras pessoas, crenças e consequências.

A maior lição de Francis Bacon é que as “verdades” são diferentes para cada um. E dessa observação, o mais bonito é a noção de que cada pessoa pode tanto decidir mudar sua perspectiva de mundo como entender e respeitar às demais formas de entendimento humano. Eis o que, em suma, é o verdadeiro conceito de liberdade!

 

Francis Bacon. Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. Livro I, Aforismos  39-44.

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