O Banqueiro Anarquista – de Fernando Pessoa (tem spoilers!)

Fernando Pessoa, grandíssimo escritor português, não poderia ter deixado de lado a importante missão de falar sobre política. Da sua forma perspicaz e inteligente, ele cria um conto na forma de um diálogo entre dois personagens, um que entrevista e o outro entrevistado sobre a busca existencial inteligentíssima que culmina na decisão de um filósofo (assim entendo eu) de tornar-se banqueiro!

O nome do livro: “O Banqueiro Anarquista”. Nele, Fernando Pessoa descreve os motivos filosóficos e existenciais pelos quais uma pessoa decide dedicar sua vida à busca de fortuna com um personagem que compreende a si mesmo como um anarquista. Os passeios mentais tão lógicos dizem respeito à consciência de que as ficções sociais não passam de uma farsa, um perigo para a liberdade do indivíduo. Nas palavras do autor:

“O que quer o anarquista? Liberdade – a liberdade para si e para os outros, para a humanidade inteira. Quer estar livre da influência ou da pressão das ficções sociais; quer ser livre tal qual nasceu e pareceu no mundo, que é como em justiça deve ser; e quer essa liberdade para si e para todos os mais. Nem todos podem ser iguais perante a Natureza: uns nascem altos, outros baixos; uns fortes, outros fracos; uns mais inteligentes, outros menos… Mas todos podem ser iguais de aí em diante; só as ficções sociais o evitam. Essas ficções sociais é que era preciso destruir.”

Nesse sentido, o autor evidencia que as ficções sociais, isto é, leis e instituições forjadas para “corrigir” as diferenças da natureza, são, na verdade, injustas, pois usam uns contra os outros, criam senhores e escravos de uma concepção que não foi naturalmente criada. O contrário.

Mais adiante ele explica como a destruição dessas ficções sociais devem acontecer. Não é pela revolução que cria tiranos e guerras, senão pelo trabalho, pelo rompimento individual das cadeias e imposições dos outros. É a coragem, a luta diária pela própria superação. Porque a verdade é que ninguém é capaz de libertar o outro das suas próprias mazelas. Ainda que se ajude, influencie e incentive.

A grande lição do grande escritor português é que a liberdade deve ser defendida, mas antes de tudo, oportunizada e superada dia após dia por nós mesmos.

Spoilers? Eu passei vários, mas ainda sim vale a leitura. São só 19 páginas de uma linha de raciocínio interessantíssima. Como não é óbvia, não tem teoria, é apenas a descrição mental de um pensamento inteligente, por várias vezes a gente se questiona o quanto o autor não deve ter estudado para desenhar uma conclusão tão cativa.

Se eu concordo com ele? Em grande medida. Mas o brilhante do livro não é concordar ou não com ele, mas ampliar a visão de mundo e se colocar para pensar “sobre quais ficções sociais ele está falando?”. Quais seriam as ficções sociais que você julga ser necessário combater?

 

Link do livro: aqui

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